HISTÓRIA

ORIGEM E HISTÓRIA DA CAPOEIRA

A Origem da Capoeira:

 

                A origem da capoeira é um assunto muito discutido pelos capoeiristas e historiadores, entretanto não se chegou ainda a uma certeza. As opiniões se dividem em três principais explicações: 1) A capoeira seria um legado dos indígenas brasileiros; 2) a capoeira teria sido trazida pelos negros africanos para o Brasil e 3) a capoeira teria sido criada pelos escravos no Brasil como reação ao cativeiro.

                Os argumentos que sustentam a primeira hipótese são a existência de algumas citações como por exemplo no livro “A arte da gramática da língua mais usada na cota do Brasil”, do padre JOSÉ DE ANCHIETA, editado em 1955, que “os índios Tupi-guarani divertiam-se jogando capoeira”. GUILHERME DE AMEIDA, no livro “Música do Brasil”, defende serem os indígenas as raízes da capoeira. O navegador MARTIM AFONSO DE SOUSA, observou tribos jogando capoeira. O próprio nome da luta provinda do Tupi-guarani reforça essa hipótese.

                 A Segunda corrente argumenta que a capoeira fora trazida para o Brasil como uma dança litúrgica praticada ao som de instrumentos de percussão e transformada em luta. Afirma também que a capoeira era praticada na África com o nome de “jogo da zebra”,  um ritual muito violento, praticado num pequeno recinto, onde os vencedores recebiam como recompensa as meninas da tribo que se tornavam moças. Em Katagum (Nigéria), ainda existe um ritual semelhante.

                 A terceira hipótese é a mais aceita entre os capoeiristas, historiadores, folcloristas e africanistas, de que a capoeira é um produto do contexto sócio-cultural do Brasil escravista. GERHARD KUBIK, antropólogo austríaco e membro da Associação Mundial de Folclore, afirma em seu trabalho publicado pela Xerox do Brasil que em Angola não há nada semelhante ao que é chamado no Brasil de capoeira de angola. Outro argumento é de que o fenômeno capoeira não se manifestou em nenhuma outra parte do mundo que houve escravidão negra a não ser no Brasil.

                 Segundo WALDELOIR REGO (1968, p. 16), em seu livro “Capoeira”.

                 “... tudo nos leva a crer que seja a capoeira uma invenção dos africanos no Brasil, desenvolvidos pelos eus descendentes afro-brasileiros, tendo em vista uma série de fatores colhidos em documentos escritos e sobretudo no convívio e diálogo constantes com capoeiristas atuais e antigos que ainda vivem na Bahia”.

 2.2. Histórico da Capoeira:

                 No período escravista da história brasileira pode-se evidenciar a manifestação da capoeira em diferentes e contextos em função do tempo, espaço e circunstâncias sócio-históricas que caracterizaram a criação, o desenvolvimento e expansão da prática desta luta.

                Pode-se afirmar que a capoeira começou quando o primeiro negro usou a agilidade do seu corpo para atacar ou se defender de um branco opressor.

                 Sabe-se que, com certa limitação, nos momentos de folga era permitido aos escravos das fazendas praticarem seus ritos, festas e brincadeiras herdados da África. Foi nesses momentos que os escravos aproveitaram para transformar seus movimentos, executados antes num sentido religioso ou lúdico, agora como instrumento bélico contra a opressão do senhor de engenho.

                 Nestes momentos quando os senhores de engenho afirmavam: “Os negros estão brincando de angola”, esses ao som de instrumento de percussão, palmas e cantorias com uma dança.

                 Mas logo a sua prática foi proibida, como lembra NESTOR CAPOEIRA: (1988, p. 14).

                 “Os motivos são vários:

dava aos africanos um sentido de nacionalidade;

dava ao capoeirista, individualmente, auto-confiança;

formava lutadores ágeis e perigosos;

às vezes, no jogo, os escravos se machucavam – o que era economicamente indesejável.”

                 Sendo a capoeira, então, praticada como uma “brincadeira de angola” onde havia repressão, de forma violenta onde era permitido, ensinada e praticada às ocultas onde havia proibição.

                 Outra situação onde certamente a capoeira teria sido praticada e desenvolvida foi nos quilombos, local que permitiu uma prática mais livre, sistematizada e com a facilidade de autodefesa.

                 No século XVII, quando se verificavam as invasões holandesas, muitos escravos abandonaram suas fazendas e seus senhores aproveitando da situação tumultuada estabelecida e se reuniram na Serra de Barriga, no Estado de Alagoas, e constituíram uma república, conhecida como Quilombo de Palmares. Durante dez anos Domingos Jorge Velho tentou exterminar Palmares utilizando de diversos recursos bélicos, bacteriológicos e químicos. Em 1697, consegue entrar no quilombo e destruí-lo, entretanto, muitos negros conseguem fugir e vão transmitir a capoeira à outros negros com forma mais aperfeiçoado de ataque e defesa.

                 Ainda nesse período muitos capoeiristas se tornaram heróis em guerra como a Guerra do Paraguai, outros trabalhando de guarda-costas de figuras ilustres da Colônia e posteriormente do Império.

                 A capoeira nessa fase, foi utilizada como instrumento bélico para fuga do cativeiro, para defesa e manutenção dos agrupamentos denominados quilombos e algumas vezes em guerras do Brasil ou como guarda-costas.

                 A Lei Áurea que aboliu a escravidão no Brasil em 13 de maio de 1988 e a Proclamação da República em 15 de novembro de 1889, marcaram uma nova fase à história da capoeira, uma fase caracterizada pela marginalidade de perseguição.

                 Após os negros serem considerados livres, criou-se um grave problema social com conseqüências desastrosas. Muitos negros desempregados, famintos, sem Ter onde morar e sofrendo discriminação racial, começaram a praticar assaltos e roubos para sobreviverem e muitas vezes utilizavam a capoeira como arma.

                 Marginais brancos também aprenderam a utilizar essa forma de luta associada a outras armas brancas. Apareceram grupos organizados de marginais que levaram a população ao terror. Muitos bandos rivais, principalmente no Rio de Janeiro, travaram verdadeiras batalhas entre si, agiam em festas populares e em assaltos. Os dois maiores bandos rivais foram os negros republicanos a proibira prática de capoeira e perseguir os capoeiristas.

                 Em 1890, o Código Penal da República, estabelece no capítulo XIII, uma pena de dois a seis meses de prisão aos vadios e capoeiristas. Em 1893, o Código Penal autorizou o governo a construir uma “colônia de correção” em Fazenda da Boa Vista ou em qualquer outro lugar, destinados aos vadios e capoeiristas.

                 Entre os perseguidores dos capoeiristas se destacou Sampaio Ferras, chefe de polícia no Rio de Janeiro no governo do Marechal Deodoro, o regente Feijó e o comandante de granadeiros Major Vidigal. Além de reclusão e trabalho, os praticantes da capoeira eram desterrados para Ilha de Fernando de Noronha e também recebiam castigos corporais.

                 Nesse período de marginalidade e perseguição, a capoeira utilizada como vadiagem, arma de assaltos e brigas de bandos na tentativa de sobrevivência das classes marginalizadas do sistema do país.

                 Por volta de 1930, iniciou uma nova fase para a capoeira. Manoel dos Reis Machado, o mestre Bimba, nascido em 23 de novembro de 1900, na Freguesia de Brotas, Engenho Velho, Salvador, com a intenção de revolucionar a capoeira, dando a ela igualdade para competir com outras lutas, cria um sistema próprio baseado em 52 golpes e uma sequência de ensino com 8 partes.

                 Mestre Bimba é chamado por Getúlio Vargas para fazer uma apresentação de capoeira no palácio da presidência. O presidente encantado com a luta resolve liberá-la considerando-a integrante do folclore nacional. Mestre Bimba é registrado como professor de Educação Física, e em 1939, já ensinava capoeira no quartel do CPOR.

                 Seu grupo apresentava, além de capoeira, danças como o maculelê, samba de roda, samba duro e candomblé. Tinha como um dos objetivos a difusão da cultura afro-brasileira.

                 Entre os fatores que favoreceram a difusão da sua capoeira foi a adequação do seu método de ensino a uma classe mais abastada de salvador e também o clima de nacionalismo do Período da República Nova.

                Além da liberação da capoeira, outra contribuição de mestre Bimba foi a idéia de transformá-la em esporte e luta nacional, abriu também, caminhos para novas dimensões que a capoeira viria a tomar posteriormente.

                 A partir de 1960 a capoeira toma um novo impulso, muitos capoeiristas migram da Bahia e vão ensinar capoeira em outros estados, ou mesmo pessoas saem do seu estado e vão até a Bahia aprender capoeira e retornam ensinando-a. Este fato aconteceu no Rio de Janeiro, São Paulo e até mesmo em Goiás.

                 Em 1961, a capoeira, sob forma de desporto, foi introduzida no currículo de ensino da Polícia Militar do Estado da Guanabara.

                 A 26 de dezembro de 1972, a Confederação Brasileira de Pugilismo, por intermédio do seu Departamento Especial de Capoeira, baixou o “Regulamento Técnico” pelo qual oficializa a capoeira como desporto, estabelecendo as normas a serem obedecidas para a sua prática desportiva. A partir de então passa-se a realizar campeonato nacionais da modalidade.

                 Já na década de 80, vê-se a capoeira expandir para todos os cantos do país, ela é praticada em academias, clubes, centros comunitários, associações de moradores, escolas, faculdades etc.

                 Inezil Pena Marinho, estudioso de Educação Física, sempre almejou a criação de um método nacional de Educação Física, uma ginástica brasileira baseada na capoeira, campo no qual publicou diversos trabalhos.

                 Ao assistir a “V Grande Roda” em dezembro de 1980, em Brasília, resolveu então elaborar um projeto no sentido de criar uma ginástica essencialmente brasileira, desejado desde 1823, desde a Proclamação da Independência, a exemplo da ginástica sueca, da ginástica alemã, da ginástica francesa, da ginástica austríaca etc., “com fundamentos arraigados às nossas características ao nosso temperamento, algo que falasse da alma nacional e servisse para enfatizá-la e exaltá-la”. Para esse estudioso da Educação Física brasileira, não há atividade mais genuína e que preencha tais requisitos melhor que a capoeira.

                 Inezil chega a publicar em 1982, o Resumo Geral do Projeto “A Ginástica Brasileira” como base na capoeira (p. 50), abrangendo:

                 1º grupo: pré-escolar (até 7 anos);

                2º grupo: escolar de 1º grau – 1ª parte (7 {a 10 anos) e

                              escolar de 1º grau – 2ª parte (11 à 14 anos);

                3º grupo: escolar de 2º grau (15 à 18 anos);

                4º grupo: universitário (19 à 24 anos);

                5º grupo: pós-universitário (25 à 40 anos);

                6º grupo: a conservação (acima dos 40 anos).

                 Em 19 de outubro de 1987, a Secretaria de Educação Física e Desporto do Ministério da Educação, baixa a portaria nº 40, criando o “Programa Nacional da Capoeira”, objetivando colaborar nas questão estruturais e conjunturais que permeiam a capoeira dentre elas:

 “a) a preparação de recursos humanas atuantes e que pretendem atuar no setor;

                b) a reconstituição da memória da capoeira;

                c) a divulgação da capoeira em sua manifestação artística;

                d) a integração da capoeira no contexto da Escola e Educação;

e) o apoio à capoeira como manifestação popular, como prática de atividade física do tempo livre e conservação da saúde;

f) a realização de estudos e pesquisas sobre a pedagogia da capoeira 

g) o fomento a realização de competições que enfatizem o “jogo da capoeira” (SEED/MEC, 1987, p. 6).”

                 Em 1985, a capoeira foi introduzida nos jogos Escolares Brasileiros (JEB’S), realizados em Belo Horizonte e São Paulo na forma de confronto seguindo os ditames da Confederação Brasileira de Pugilismo.

                Nos Jogos Escolares Brasileiros de 1987, em Campo Grande foi implantado um novo sistema de competição composto de cinco etapas: competição individual, em duplas, em conjunto, concurso de música inédita e concurso de seminários elaborados e proferidos pelos próprios atletas sobre temas relacionados à capoeira.

                 Os JEB’s passaram, a ser uma oportunidade para o intercâmbio entre os principais capoeiristas do Brasil, possibilitando a discussão sobre os diversos aspectos da capoeira. Até mesmo provocou uma mudança no direcionamento do Plano Nacional da Capoeira, dando um novo impulso, concentrando esforços no resgate da capoeira tradicional.

                 A principal característica da capoeira nesse período de intensa expansão e inovações por todo o Brasil, foi a uma pluridimencionalização como luta, esporte, folclore  e principalmente como educação.